
A imagem
O que se vê na carta
Um sacerdote com tríplice coroa está sentado entre duas colunas e ergue a mão direita num gesto de bênção. Na esquerda, um cetro com cruz tripla. A seus pés, duas chaves cruzadas e dois ministros ajoelhados. Waite o chama de "o poder que governa a religião exterior".
Os símbolos do Hierofante
- A tríplice coroa. O Hierofante usa uma coroa de três andares, como a tiara papal. Os três níveis são lidos como os três mundos: o corpo, a alma e o espírito.
- O gesto de bênção. Com a mão direita, ele abençoa com dois dedos erguidos. Waite chama esse gesto de “sinal do esoterismo”, que distingue a parte manifesta da parte oculta da doutrina. A Sacerdotisa, ao contrário, não faz nenhum gesto.
- O cetro de cruz tripla. Na mão esquerda, um cetro com três barras cruzadas, mais uma imagem dos três planos.
- As chaves cruzadas. A seus pés, duas chaves, uma de ouro e uma de prata, as chaves do conhecimento e da tradição. Elas lembram as chaves de São Pedro, símbolo da autoridade da Igreja.
- Os dois discípulos. Ajoelhados diante dele, dois ministros com roupas bordadas de rosas e lírios, as mesmas flores do jardim do Mago. O ensinamento passa de mestre para aluno.
- As colunas cinzentas. Como a Sacerdotisa, ele está entre duas colunas. Mas as dela são preta e branca, os opostos; as dele são iguais, de pedra. Waite observa que não são as mesmas do templo dela: aqui é a religião exterior, a instituição.
O Papa e a tradição
No Tarot de Marselha, a carta V se chama Le Pape, o Papa. Waite trocou o nome por Hierofante, palavra grega que designava o sacerdote dos Mistérios de Elêusis, aquele que “mostra as coisas sagradas” aos iniciados. Com isso, a carta deixou de falar de uma igreja específica e passou a representar toda forma de ensinamento tradicional: religioso, acadêmico, familiar, cultural.
Waite o descreve como “o poder que governa a religião exterior”, em contraste com a Sacerdotisa, guardiã da doutrina secreta. Ela é o conhecimento que se intui; ele, o conhecimento que se transmite.
Na Golden Dawn, o Hierofante corresponde a Touro, signo de terra fixa, regido por Vênus. Faz sentido: Touro é o signo que conserva, que faz durar, que mantém as tradições. A letra hebraica é Vav (ו), que significa “prego” ou “gancho”, aquilo que une e fixa uma coisa à outra.
Na sequência, o Hierofante vem depois do Imperador. O Imperador organiza o mundo material com leis; o Hierofante organiza o mundo espiritual com ritos e ensinamentos.
O Hierofante numa leitura
O Hierofante fala de aprender com quem veio antes. Pode representar um mestre, um professor, um orientador espiritual, uma escola, uma religião, uma instituição. É uma carta de estudo, de formação, de rituais, de casamentos e cerimônias, de entrar num grupo com valores comuns.
Também fala de convenção: o caminho testado, as regras do jogo, o que a comunidade espera. Às vezes, seguir a tradição é sabedoria; ela guarda a experiência de muitas gerações.
A sombra do Hierofante é o dogma: seguir regras sem entender, obedecer sem questionar, julgar quem pensa diferente. Invertida, a carta pode apontar tanto o conformismo excessivo quanto o seu oposto, a rebeldia, a quebra de convenções e a busca de um caminho próprio fora das instituições.
Perguntas para refletir com esta carta:
- Com quem eu posso aprender agora?
- Que tradições ou valores me sustentam, e quais apenas me prendem?
- Estou seguindo uma regra porque acredito nela ou porque sempre foi assim?
Registro histórico
O que Waite escreveu em 1910
- Na posição normal
- Casamento, aliança, cativeiro, servidão; segundo outra versão, misericórdia e bondade; inspiração; a pessoa a quem o consulente recorre.
- Invertida
- Sociedade, bom entendimento, concórdia, bondade excessiva, fraqueza.
Tradução própria de The Pictorial Key to the Tarot (1910). Waite reuniu os significados da cartomancia do seu tempo, por isso fala em "consulente", "homem moreno" e coisas do tipo. As palavras-chave acima são uma leitura atual.