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terça-feira, 6 de outubro de 2026Lua Minguante
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Saberes antigos, prática de hoje

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Cabala

Cabala cristã, hermética e gnóstica

A mesma Árvore foi lida de maneiras muito diferentes ao longo de oito séculos. Conhecer essas leituras ajuda a entender de onde vem o que se encontra hoje nos livros.

Linha do tempo

  1. séc. IIGnoseValentino e Basílides ensinam em Alexandria e Roma. Ireneu de Lyon escreve contra eles por volta de 180.
  2. séc. III a VICabala judaicaData provável do Sefer Yetzirá, o Livro da Formação: as dez sefirot e as 22 letras.
  3. c. 1180Cabala judaicaAparece na Provença o Sefer ha-Bahir, o Livro da Claridade, primeiro texto a falar das sefirot como atributos divinos.
  4. c. 1280Cabala judaicaMoisés de León, em Castela, começa a divulgar o Zohar, atribuído ao rabino Shimon bar Yochai, do século II.
  5. 1486Cabala cristãPico della Mirandola publica as suas 900 teses em Roma, várias delas sobre a Cabala.
  6. 1494Cabala cristãJohannes Reuchlin publica De Verbo Mirifico, com o nome YHShVH: o Tetragrama com um Shin no meio.
  7. 1517Cabala cristãReuchlin publica De Arte Cabalistica, o primeiro grande tratado cristão sobre a Cabala.
  8. 1533Cabala cristãCornélio Agrippa publica a edição completa da Filosofia Oculta. O terceiro livro é dedicado à Cabala.
  9. 1569–1572Cabala judaicaEm Safed, na Galileia, Isaac Luria ensina a contração divina, a quebra dos vasos e o reparo do mundo.
  10. 1652Cabala cristãAthanasius Kircher publica o Oedipus Aegyptiacus, com o desenho da Árvore que se tornaria o mais usado.
  11. 1677–1684Cabala cristãKnorr von Rosenroth publica a Kabbala Denudata, tradução latina de partes do Zohar.
  12. 1785GnoseO Museu Britânico compra o Códice Askew, que contém a Pistis Sophia.
  13. 1856Cabala herméticaÉliphas Lévi conclui Dogma e Ritual da Alta Magia e populariza a ligação entre as 22 letras e os 22 arcanos.
  14. 1888Cabala herméticaFundação da Golden Dawn em Londres. Os graus da ordem passam a seguir as sefirot.
  15. 1889Cabala herméticaPapus publica O Tarot dos Boêmios, que lê as cartas pela Cabala.
  16. 1890GnoseJules Doinel funda em Paris a Igreja Gnóstica, a primeira tentativa moderna de restaurar o gnosticismo como religião.
  17. 1909Cabala herméticaAleister Crowley publica 777, uma grande tabela de correspondências organizada pelos 32 caminhos.
  18. 1935Cabala herméticaDion Fortune publica A Cabala Mística, ainda hoje uma das introduções mais lidas.
  19. 1941Cabala judaicaGershom Scholem publica As Grandes Correntes da Mística Judaica e funda o estudo acadêmico da Cabala.
  20. 1945GnoseCamponeses encontram em Nag Hammadi, no Egito, 13 códices com textos gnósticos perdidos havia 1.500 anos.
  21. 1950GnoseSamael Aun Weor publica O Matrimônio Perfeito, livro que dá início ao movimento gnóstico que leva o seu nome.

A raiz: a Cabala judaica

Toda Cabala começa aqui. Os primeiros textos são o Sefer Yetzirá, curto e enigmático, e o Bahir, que surge na Provença no fim do século XII. O grande livro é o Zohar, o "Esplendor": um comentário místico à Torá, escrito em aramaico, que Moisés de León divulgou em Castela a partir de 1280. A tradição o atribui ao rabino Shimon bar Yochai, que viveu mil anos antes. A pesquisa moderna, desde Gershom Scholem, considera que Moisés de León foi o seu principal autor.

Depois da expulsão dos judeus da Espanha, em 1492, a cidade de Safed, na Galileia, tornou-se o centro da Cabala. Ali Isaac Luria ensinou uma visão dramática da criação: Deus se contrai para dar lugar ao mundo (tsimtsum); a luz divina enche vasos que não a suportam e se partem (shevirat ha-kelim); e cabe às pessoas, pela oração e pela ética, recolher as faíscas e reparar o mundo (tikun olam).

Para a Cabala judaica, a Árvore não é um mapa abstrato: ela está ligada à Torá, aos mandamentos, às orações e ao calendário. Separar uma coisa da outra é, para muitos rabinos, deixar de fazer Cabala.

A Cabala cristã

Em Florença, no fim do século XV, Giovanni Pico della Mirandola estudou hebraico com judeus convertidos e chegou a uma conclusão ousada: a Cabala, bem lida, confirmava os mistérios cristãos. Nas suas 900 teses (1486) afirmou que nenhuma ciência prova melhor a divindade de Cristo do que a magia e a Cabala. A Igreja condenou parte das teses, mas a ideia ficou.

O alemão Johannes Reuchlin deu o passo seguinte. No De Verbo Mirifico (1494) propôs o Pentagrammaton: o Nome de quatro letras, יהוה, com a letra Shin (ש) no meio, formando יהשוה, lido como Yehoshua, Jesus. A ideia era que o Nome impronunciável do Antigo Testamento se tornava pronunciável no Novo. Em 1517, o De Arte Cabalistica organizou toda a doutrina para leitores cristãos.

Vieram depois Cornélio Agrippa, que fez da Cabala o terceiro livro da sua Filosofia Oculta (1533); Guillaume Postel, que traduziu o Sefer Yetzirá para o latim; o jesuíta Athanasius Kircher, cujo desenho da Árvore (1652) é o que se usa até hoje; e Christian Knorr von Rosenroth, cuja Kabbala Denudata (1677–1684) deu aos estudiosos europeus, pela primeira vez, trechos do Zohar em latim.

Na Cabala cristã, a Trindade aparece no triângulo superior, o Cristo em Tiféret, o centro da Árvore, e a Virgem Maria é às vezes associada à Shekhiná, a presença divina em Malkhut. São leituras cristãs de um sistema judaico, e é bom saber disso ao ler qualquer livro do gênero.

A Cabala hermética

No século XIX, os ocultistas franceses e ingleses juntaram tudo: a Cabala cristã, a astrologia, a alquimia e o tarot. Éliphas Lévi popularizou a ideia de que os 22 arcanos maiores correspondem às 22 letras hebraicas. Papus desenvolveu-a em O Tarot dos Boêmios (1889). A Golden Dawn, fundada em Londres em 1888, organizou o sistema que o Valurim usa: cada caminho com uma letra, uma carta e um astro, e os graus da ordem subindo pelas sefirot.

Daí vêm as grandes tabelas de correspondências, como o 777 de Aleister Crowley (1909), e os manuais do século XX, como A Cabala Mística de Dion Fortune (1935). Para diferenciar essa corrente da judaica, alguns autores de língua inglesa escrevem Qabalah, com Q.

Na Cabala hermética, a Árvore funciona como um arquivo universal: deuses, cores, perfumes, pedras e planetas são distribuídos pelas sefirot, e o estudante sobe por elas como numa escada interior. É uma construção moderna e criativa, com uma relação apenas parcial com a tradição judaica.

A Gnose antiga

Gnôsis, em grego, quer dizer "conhecimento": não o conhecimento dos livros, mas o de quem tem uma experiência direta do divino. No século II surgiram vários mestres cristãos, como Valentino e Basílides, que ensinavam que o mundo material foi feito por um deus menor, o Demiurgo, e que dentro de cada pessoa há uma centelha do Deus verdadeiro, exilada, que precisa lembrar de onde veio.

Durante séculos, esses mestres foram conhecidos quase só pelo que diziam os seus adversários, como Ireneu de Lyon. Isso mudou em 1945, quando foram achados em Nag Hammadi, no Egito, treze códices com dezenas de textos gnósticos, entre eles o Evangelho de Tomé, o Evangelho da Verdade e o Apócrifo de João. Outro texto famoso, a Pistis Sophia, conta como Sophia, a Sabedoria, caiu do mundo da luz e foi resgatada pelo Cristo.

A Gnose e a Cabala não são a mesma coisa, mas têm parentescos: a plenitude divina (pleroma) que se desdobra em emanações, a ideia de uma luz exilada no mundo e a tarefa humana de libertá-la. Gershom Scholem dedicou um livro a esses laços, falando numa "gnose judaica".

A Gnose moderna

Em 1890, o francês Jules Doinel fundou em Paris a Igreja Gnóstica, com bispos e liturgia próprios. Ocultistas como Papus foram ordenados nela. Dessa linha nasceram várias igrejas gnósticas, entre elas a que Crowley ligou à OTO, com a sua Missa Gnóstica (1913).

No século XX, o colombiano Samael Aun Weor (Víctor Manuel Gómez Rodríguez, 1917–1977) criou um movimento gnóstico que se espalhou pela América Latina a partir da Colômbia e do México, e chegou ao Brasil. O seu ensino combina a Cabala hermética, o tarot, a astrologia, a alquimia interior e práticas de meditação, em torno de três ideias: a morte do ego, o nascimento de um novo ser e o serviço à humanidade. Depois da sua morte, o movimento se dividiu em várias instituições, que hoje oferecem cursos e palestras em muitas cidades brasileiras.

Boa parte dos livros que circulam no Brasil com títulos como "Cabala gnóstica" vem dessa corrente moderna. Ela tem a sua coerência própria, mas não deve ser confundida com o gnosticismo do século II nem com a Cabala judaica.

Como ler um livro de Cabala

  • Veja de qual corrente ele parte: judaica, cristã, hermética ou gnóstica moderna. Muitos livros misturam as quatro sem avisar.
  • Desconfie de datas antigas demais. Quase tudo o que liga a Cabala ao tarot foi escrito depois de 1850.
  • As correspondências variam. A Golden Dawn, Papus e Crowley nem sempre concordam, e todas as versões são construções humanas.
  • A Cabala judaica continua viva. Quando um texto fala dela, vale ouvir também o que dizem os próprios judeus.